A data de hoje (31 de março) marca mais um ano do desgraçado golpe militar de 1964...
Em 2001, quando cursei Jornalismo na Faculdade de Comunicação Social da UNIVAP (Universidade do Vale do Paraíba), assisti um documentário sobre o assassinato de Vladimir Herzog e as manifestações que se seguiram - atos que racharam as fundações da ditadura (e sim, ditadura, jamais "governo militar", como se fosse algo legítimo)... Ao final da exibição, um colega de curso, com aquele tom desdenhoso de quem nunca teve de sussurrar dentro da própria casa, perguntou ao professor por que insistir em mais um filme sobre "aquela época"... E antes que houvesse resposta, tomei a palavra.
E contei.
Contei sobre meu pai reclamando do regime e minha mãe dizendo: "Cesário fale baixo, porque alguém pode ouvir e chamar a polícia"... Contei sobre um primo preso e torturado violentamente porque vendia a enciclopédia Barsa de casa em casa e o vermelho das capas bastou para que vissem nele um "subversivo", como se a cor fosse uma espécie de "código"; contei sobre outro primo, que fugiu de São Paulo como um animal encurralado, escondeu-se em nossa casa no interior e depois desapareceu no exílio, levando consigo apenas o peso do que o Brasil havia se tornado...
Essa foi a máquina de moer vidas que institucionalizou a tortura como política de Estado! Não como "exceção", mas como método; um regime que enterrou cadáveres em valas clandestinas, que arrancou unhas, que aplicou choques em genitais, que estuprou, que introduziu ratos em vaginas, que cortou bicos de seios; um regime que deixou filhos órfãos e pais enlouquecidos de dor. E há quem, hoje, não apenas negue, mas celebre essa barbárie. E não são poucas pessoas... Há quem diga "não foi bem assim..." E até há quem tenha a cara-de-pau para dizer que é tudo mentira dos Professores de História, que seriam todos "comunistas".
Em 2016, durante a votação do impeachment de Dilma Rousseff, nosso vergonhoso e criminoso ex-"presidente", um amante da ditadura e da tortura - Jair Bolsonaro - fez questão de homenagear, descaradamente, em pleno Congresso, o Torturador Brilhante Ustra; "homem" responsável por sessões de suplício no DOI-CODI, onde mulheres grávidas, adolescentes e militantes foram submetidos a choques, afogamentos e espancamentos até a morte; e não, não se trata de um "ato espontâneo", mas sim da mais abjeta declaração de princípios. E os bestiais filhos do ex-"presidente"? E seus apoiadores? Gente doente que vestiu a cara do Torturador no peito, como se troféu fosse! Postaram fotos sorridentes com camisetas do "homem" do homem que destruiu vidas... Essa "gente" enxerga a tortura como um motivo de orgulho, enquanto se dizem Cristãos! Essa "gente" não é apenas ignorante, é moralmente torpe, podre. Tortura não é "opinião política", é Crime contra a Humanidade! É a covardia institucionalizada! É o que regimes fascistas fazem quando querem quebrar não só corpos, mas almas... Quem defende torturador, quem ri da dor alheia, quem usa a imagem de um monstro como símbolo, só tem um lugar numa Democracia: A CADEIA!
E a redemocratização não caiu do céu... Ela foi conquistada com sangue, com lágrimas, com os gritos das mães da Praça da Sé, com a teimosia dos que não se curvaram... A Constituição de 1988 não foi uma "generosidade" dos poderosos, foi a resposta dos brasileiros que não aceitaram viver de joelhos!
Mas em pleno século XXI, os filhotes da ditadura e seus herdeiros, tentaram rasgar essa conquista... Bolsonaro e sua seita de golpistas fanatizados, incapazes de aceitar a derrota nas urnas, conspiraram, mentiram, incitaram ódio e - no dia 8 de janeiro de 2023 - rasgaram a fantasia e soltaram a franga: vandalizaram os símbolos da República, cuspiram na memória de quem lutou pela Democracia e tentaram impor - outra vez - o governo da força bruta.
Não foi um "protesto"... Foi um ensaio de fascismo.
E aqui está a verdade que os negacionistas não suportam ouvir: o Brasil já conheceu o cheiro da ditadura e ele não é um fantasma do passado, é um monstro que ainda respira, afinal, "a cadela do fascismo está sempre no cio..." Os ovos da serpente estão nos discursos que glorificam torturadores, nas fake news que distorcem a História, nos políticos que sonham com um país de obediência cega... Por isso a impunidade não pode ser uma opção! Todos os envolvidos no 8 de janeiro - de mandantes a executores - devem responder perante a Lei; todos os que vestiram a cara de Ustra como um troféu devem ser lembrados pelo que são: apologistas da tortura e rechaçados onde quer que vão.
Porque Democracia não se negocia.
Porque memória não se apaga.
E porque, diante da tirania, só há uma resposta possível: RESISTIR!
Sempre...







