terça-feira, 25 de março de 2025

A MULHER E O TEMPO

                                                        Reprodução do Instagram de @yasminarossi

O tempo não passa... Ele dança... O tempo é um bailarino silencioso que desliza sobre a pele como brisa sobre campos de trigo, transformando cada instante em fios prateatos de memória; ele não é um ladrão, mas um ourives divino que pacientemente molda o metal bruto da existência em obras-primas de radiante Sabedoria. O tempo não subtrai, não apaga; apenas soma - camada após camada - a doçura dos risos que ecoaram, o sal das lágrimas que rolaram, o silêncio sagrado das madrugadas em que a alma revelou seus segredos mais profundos...

Há quem olhe para os primeiros fios prateados e veja ausência; mas eles são constelações, vestígios luminosos de uma vida que não teve medo de arder em chamas... São fiapos de luar entrelaçados nos cabelos, como lembranças de noites em que a lua foi testemunha de sonhos desabrochando, de amores nascendo... Cada ruga é um verso gravado a carvão e mel, um mapa sagrado de todas as vezes que o sorriso venceu a dor; que o amor foi mais forte que o medo, que a esperança floresceu mesmo no inverno mais rigoroso... A maturidade não é o outono que seca as folhas, mas a estação que revela a raiz mais profunda; aquela que - mesmo conhecendo o sabor amargo da terra - ainda se alonga em direção ao céu. Há uma beleza escondida ali, uma que não se revela aos olhos apressados; exigindo um olhar feito de silêncio e intuição, capaz de ver além da casca... De perceber que o verdadeiro encanto é como vinho antigo: fermenta, ganha corpo, torna-se mais intenso, mais rico, mais capaz de embriagar a alma.

E há mulheres - essas criaturas alquímicas - que mesmo quando o tempo lhes beija as mãos com seus lábios inexoráveis, não perdem o fulgor! Não brilham por causa da juventude, mas apesar dela! Seu esplendor vem de dentro, como um sol interior que nenhuma nuvem pode ocultar... É o fogo da inteligência que ilumina, a coragem que teceu histórias dignas de epopeias, a serenidade de quem já navegou tempestades e ainda carrega nas pupilas o sal do mar e o brilho das estrelas que a guiaram através de tormentas implacáveis nas noites mais escuras.

Seus lábios, agora desenhados pelo tempo como mapas de mil beijos dados e recebidos, guardam palavras que podem acender mundos ou acalmar corações feridos; lábios já não tão cheios, mas que guardam segredos e canções que só os corações altivos conseguem escutar e decifrar.. Mãos - talhadas pela vida - conhecem tanto o peso do mundo quanto o calor do afago mais terno... E seus cabelos, outrora cascada escura, agora se vestem de prata - não como um manto de despedida, mas - como asas preparadas para alçar novos voos... Sim, há uma magia nessas mulheres que aprenderam a abraçar o tempo sem resistência... Elas não se deixam enganar pelos espelhos que mostram apenas a superfície - sabem que a verdadeira beleza mora no brilho do olhar que já viu de tudo e ainda assim guarda encanto - na firmeza da voz que não treme ao contar suas verdades, na serenidade com que pisam no mundo, deixando marcas suaves como pétalas caídas. Algumas carregam nos ombros o peso de mil batalhas, mas seus passos são leves, como se dançassem sobre a terra em um balé divino... Outras trazem nos olhos a profundidade dos oceanos, porque já navegaram por águas calmas e revoltas e ainda assim mantêm o leme de sua alma firme em direção ao horizonte. Suas mãos - já marcadas pelo tempo - não tremem, mas acariciam, criam, sustentam, transformam...  E quando a luz as toca, não é a pele que reluz, mas a alma! Porque elas entenderam o segredo mais profundo: o tempo não é um inimigo; é o mestre que ensina, o oleiro que molda, o vento que poliu diamantes brutos até que se tornassem pura luz; não importa quantas luas tenham visto, quantas estações tenham atravessado, elas continuam a florescer, porque sua beleza não está presa à carne perecível, mas à essência imortal.

Como o vinho que se enriquece nos porões do tempo, como a música que ganha profundidade quando interpretada por quem conhece cada nota, elas se transformam, se aprofundam, se tornam mais elas mesmas a cada dia que passa... E assim caminham... Com passos firmes ou descalças sobre a relva, mas sempre com a cabeça erguida, coroada por uma aura que só as iniciadas nos mistérios da vida conseguem perceber; porque a verdadeira beleza não se curva ao tempo; não se rende ao relógio... A verdadeira beleza é feita de instantes que se acumulam como pérolas no fundo do mar, de alquimias que transformam cicatrizes em rara Poesia. Quando uma mulher entende isso, ela transcende. Não envelhece—torna-se eterna.

E no fim, quando todas as contas estiverem feitas, não serão os anos que terão importância, será o brilho que permanece. A luz que não se apaga; a dança eterna entre a alma e o tempo, criando juntos uma melodia que ecoa para além do fim de todas as coisas.

A juventude pode fazer um rosto perfeito, mas somente o tempo faz uma mulher inesquecível.


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