E, como toda entidade que se alimenta do caos, encontrou terreno fértil numa população que aprendera a decorar fórmulas, mas não a pensar; que acumulava diplomas como quem coleciona molduras vazias, sem jamais preenchê-las com o quadro do Conhecimento; uma gente que desaprendeu a ler o mundo, mas se tornou especialista em repetir manchetes, slogans e mentiras com a fé cega dos convertidos; as mentiras - aliás - ganharam um estatuto curioso: mesmo desmascaradas, recusavam-se a morrer! Eram como fantasmas teimosos, mantidos vivos não por insistência da verdade, mas pela necessidade de acreditar neles e assim, o que já fôra exposto como falso ressurgia, curtido, compartilhado e defendido com unhas e dentes, como se a repetição pudesse reescrever a realidade... E foi nesse terreno já envenenado que algo antigo voltou a respirar... Como se uma velha cadela esquecida na História tivesse voltado ao cio, inquieta, faminta, cercada por filhotes que aprenderam rápido demais a rosnar e a exibir os dentes e babar virulência e iniqüidades... E esses filhotes cresceram, multiplicaram-se e foram se espalhando por ruas e avenidas e até mesmo pelas esquinas reais, vomitando aos quatro ventos palavras de ordem que pareciam enterradas e esquecidas há muito tempo.
“Deus, pátria e família” voltou a ecoar como senha; uma senha que abre portas para excluir, pra perseguir, pra silenciar... Repetida por bocas que já não perguntam, apenas obedecem, como refrão que dispensa música...
E de algum lugar ainda mais sombrio, ressurgem ecos de frases que a História já havia condenado, idéias que flertam despudoradamente com o autoritarismo como quem revive um vício antigo; símbolos reciclados, gestos disfarçados, nostalgias perigosas que caminham disfarçadas de Tradição... E mesmo as Galinhas Verdes - que um dia pareceram caricatura - voltam a ciscar no imaginário coletivo, agora menos risíveis e mais organizadas, falando em mitos enquanto arrotam lombo canadense a cada dentada no pão com mortadela... E elas não vêm sozinhas. Trazem consigo uma estética da violência, um culto à força, uma necessidade quase religiosa de encontrar inimigos... E encontram; sempre encontram. E seguem a apontar seus dedos para mulheres que ousaram existir com autonomia, pra pessoas LGBTQIA+ cuja simples presença já é tratada como afronta, para religiões de matriz africana que carregam séculos de resistência e, por isso mesmo, incomodam tanto; enquanto o ódio - como um maestro perverso - organiza sua sinfonia escolhendo alvos que historicamente já haviam sido empurrados às margens...
E a platéia (ou seria mais honesto chamá-la de 'patuléia'?) aplaude... Mas o mais estranho, talvez, seja perceber quem ocupa essas cadeiras; gente que atravessou portas que sempre lhes estiveram fechadas! Pessoas que - não faz tanto tempo - viram políticas públicas valorizarem o salário-mínimo, elevando-o acima da inflação, puxando consigo um pouco mais de dignidade; gente que passou a comer melhor, a estudar, a ocupar espaços que antes lhes eram negados, a comprar utensílios que viam nas casas de seus patrões, como um simples forno de microondas! E eu vi isso acontecer!
Eu vi - por exemplo - no Paineiras, os filhos da classe média torcendo o nariz diante da chegada dos filhos da classe trabalhadora (a quem chamavam, sem pudor, de “baianos” enquanto murmuravam, incomodados: “agora entra qualquer um”)... Eu vi trabalhadores que, pela primeira vez, experimentaram o gôsto raro de uma vida menos apertada; não o luxo - nunca o luxo - mas o alívio; algo que seus pais jamais conheceram (mesmo trabalhando de sol a sol por anos a fi), o direito ao simples: comer sem contar moedas, sonhar sem pedir licença... Mas havia um detalhe invisível; disseram a eles que aquilo não era conquista coletiva, mas ascensão individual; sussurraram, com a delicadeza de um veneno, que já não eram o que sempre foram, que haviam atravessado uma fronteira simbólica e agora pertenciam a outro lugar; que poderiam, enfim, sentar-se à mesa da classe média... E eles acreditaram, afinal, a promessa de pertencimento é uma das mais sedutoras que existem. Não, não lhes disseram - porém - que classe média não é apenas renda, é herança, é rede; é sobrenome que abre portas antes mesmo de se bater! É privilégio acumulado em silêncio por gerações. Privilégios que nunca tiveram e que, apesar da ilusão, seguem sem ter... Assim, passaram a atacar aquilo que os havia erguido, como se negar a própria origem fosse o preço da aceitação, misturaram-se a uma classe média que não os reconhece como iguais, mas aceita sua adesão ao discurso... Afinal, quanto mais vozes repetindo a mesma narrativa, mais confortável se torna a mentira! E é assim que a ilusão se sustenta: não pela verdade que carrega, mas pelo coro que a repete!
Enquanto isso - lá no alto, quase fora de vista - uma elite antiga e persistente segue operando como sempre fez: manipulando, moldando, direcionando... Já não precisa convencer com profundidade, basta alimentar o ruído, basta alimentar o ódio... E encontra na mídia hegemônica (ou seria 'hereditária'?) um espelho conveniente, que não reflete, mas distorce; que não informa, mas deforma, como já se sussurra pelas esquinas mais atentas, melhor frequentadas. E assim o país vai se tornando essa espécie de realismo trágico, onde o absurdo não causa mais espanto, apenas cansaço... A Direita, aquela que um dia debateu idéias, virou memória rarefeita, quase uma lenda contada por quem ainda se lembra; no lugar dela, ergueu-se um coro de certezas vazias, movido por medo, ressentimento e uma estranha nostalgia de um passado que nunca existiu... E no fundo desse coro, latindo baixo, persistente, está essa velha cadela da história, sempre à espreita, sempre fértil, sempre pronta para lembrar que o esquecimento é o terreno favorito de tudo aquilo que nunca deveria voltar...
E, no meio de tudo isso, a verdade continua fazendo o que sempre fez: caminhando devagar... Sem gritar, sem máscara... Esperando - pacientemente - o momento em que alguém, cansado de tanto ruido, tanto eco, decida finalmente escutá-la.
Nenhum comentário:
Postar um comentário