terça-feira, 24 de março de 2026

O TEATRO DO ÓDIO


Dizem que, em algum ponto não registrado nos mapas oficiais, o Brasil deixou de ser apenas um país e passou a ser também um espelho quebrado... E cada estilhaço refletia uma versão da verdade, mas havia aqueles que - por conveniência ou desespero - escolheram viver apenas no fragmento mais distorcido...

Houve um tempo em que Esquerda e Direita se encontravam como velhos adversários que (apesar das diferenças) ainda reconheciam a língua um do outro; discutiam, citavam livros, evocavam pensadores e sim, havia, mesmo no conflito, uma espécie de respeito ritual, como se soubessem que o debate era um campo onde idéias duelavam, não pessoas. Mas esse tempo foi sendo corroído... Não de uma vez, como desabam as grandes estruturas, mas aos poucos, como madeira apodrecendo por dentro, silenciosamente... Até que um dia já não sustenta o próprio peso e a Direita, aquela que se pretendia liberal, racional, estruturada, foi sendo engolida por uma criatura mais ruidosa, mais simples e infinitamente mais voraz: a extrema-direita. E não, essa nova força não discutia, ela gritava; não argumentava, ela acusava; não construía nada, apenas destruía...

E, como toda entidade que se alimenta do caos, encontrou terreno fértil numa população que aprendera a decorar fórmulas, mas não a pensar; que acumulava diplomas como quem coleciona molduras vazias, sem jamais preenchê-las com o quadro do Conhecimento; uma gente que desaprendeu a ler o mundo, mas se tornou especialista em repetir manchetes, slogans e mentiras com a fé cega dos convertidos; as mentiras - aliás - ganharam um estatuto curioso: mesmo desmascaradas, recusavam-se a morrer! Eram como fantasmas teimosos, mantidos vivos não por insistência da verdade, mas pela necessidade de acreditar neles e assim, o que já fôra exposto como falso ressurgia, curtido, compartilhado e defendido com unhas e dentes, como se a repetição pudesse reescrever a realidade... E foi nesse terreno já envenenado que algo antigo voltou a respirar... Como se uma velha cadela esquecida na História tivesse voltado ao cio, inquieta, faminta, cercada por filhotes que aprenderam rápido demais a rosnar e a exibir os dentes e babar virulência e iniqüidades... E esses filhotes cresceram, multiplicaram-se e foram se espalhando por ruas e avenidas e até mesmo pelas esquinas reais, vomitando aos quatro ventos palavras de ordem que pareciam enterradas e esquecidas há muito tempo.

“Deus, pátria e família” voltou a ecoar como senha; uma senha que abre portas para excluir, pra perseguir, pra silenciar... Repetida por bocas que já não perguntam, apenas obedecem, como refrão que dispensa música...

E de algum lugar ainda mais sombrio, ressurgem ecos de frases que a História já havia condenado, idéias que flertam despudoradamente com o autoritarismo como quem revive um vício antigo; símbolos reciclados, gestos disfarçados, nostalgias perigosas que caminham disfarçadas de Tradição... E mesmo as Galinhas Verdes - que um dia pareceram caricatura - voltam a ciscar no imaginário coletivo, agora menos risíveis e mais organizadas, falando em mitos enquanto arrotam lombo canadense a cada dentada no pão com mortadela... E elas não vêm sozinhas. Trazem consigo uma estética da violência, um culto à força, uma necessidade quase religiosa de encontrar inimigos... E encontram; sempre encontram. E seguem a apontar seus dedos para mulheres que ousaram existir com autonomia, pra pessoas LGBTQIA+ cuja simples presença já é tratada como afronta, para religiões de matriz africana que carregam séculos de resistência e, por isso mesmo, incomodam tanto; enquanto o ódio - como um maestro perverso - organiza sua sinfonia escolhendo alvos que historicamente já haviam sido empurrados às margens...

E a platéia (ou seria mais honesto chamá-la de 'patuléia'?) aplaude... Mas o mais estranho, talvez, seja perceber quem ocupa essas cadeiras; gente que atravessou portas que sempre lhes estiveram fechadas! Pessoas que - não faz tanto tempo - viram políticas públicas valorizarem o salário-mínimo, elevando-o acima da inflação, puxando consigo um pouco mais de dignidade; gente que passou a comer melhor, a estudar, a ocupar espaços que antes lhes eram negados, a comprar utensílios que viam nas casas de seus patrões, como um simples forno de microondas! E eu vi isso acontecer!

Eu vi - por exemplo - no Paineiras, os filhos da classe média torcendo o nariz diante da chegada dos filhos da classe trabalhadora (a quem chamavam, sem pudor, de “baianos” enquanto murmuravam, incomodados: “agora entra qualquer um”)... Eu vi trabalhadores que, pela primeira vez, experimentaram o gôsto raro de uma vida menos apertada; não o luxo - nunca o luxo - mas o alívio; algo que seus pais jamais conheceram (mesmo trabalhando de sol a sol por anos a fi), o direito ao simples: comer sem contar moedas, sonhar sem pedir licença... Mas havia um detalhe invisível; disseram a eles que aquilo não era conquista coletiva, mas ascensão individual; sussurraram, com a delicadeza de um veneno, que já não eram o que sempre foram, que haviam atravessado uma fronteira simbólica e agora pertenciam a outro lugar; que poderiam, enfim, sentar-se à mesa da classe média... E eles acreditaram, afinal, a promessa de pertencimento é uma das mais sedutoras que existem. Não, não lhes disseram - porém - que classe média não é apenas renda, é herança, é rede; é sobrenome que abre portas antes mesmo de se bater! É privilégio acumulado em silêncio por gerações. Privilégios que nunca tiveram e que, apesar da ilusão, seguem sem ter... Assim, passaram a atacar aquilo que os havia erguido, como se negar a própria origem fosse o preço da aceitação, misturaram-se a uma classe média que não os reconhece como iguais, mas aceita sua adesão ao discurso... Afinal, quanto mais vozes repetindo a mesma narrativa, mais confortável se torna a mentira! E é assim que a ilusão se sustenta: não pela verdade que carrega, mas pelo coro que a repete!

Enquanto isso - lá no alto, quase fora de vista - uma elite antiga e persistente segue operando como sempre fez: manipulando, moldando, direcionando... Já não precisa convencer com profundidade, basta alimentar o ruído, basta alimentar o ódio... E encontra na mídia hegemônica (ou seria 'hereditária'?) um espelho conveniente, que não reflete, mas distorce; que não informa, mas deforma, como já se sussurra pelas esquinas mais atentas, melhor frequentadas. E assim o país vai se tornando essa espécie de realismo trágico, onde o absurdo não causa mais espanto, apenas cansaço... A Direita, aquela que um dia debateu idéias, virou memória rarefeita, quase uma lenda contada por quem ainda se lembra; no lugar dela, ergueu-se um coro de certezas vazias, movido por medo, ressentimento e uma estranha nostalgia de um passado que nunca existiu... E no fundo desse coro, latindo baixo, persistente, está essa velha cadela da história, sempre à espreita, sempre fértil, sempre pronta para lembrar que o esquecimento é o terreno favorito de tudo aquilo que nunca deveria voltar...

E, no meio de tudo isso, a verdade continua fazendo o que sempre fez: caminhando devagar... Sem gritar, sem máscara... Esperando - pacientemente - o momento em que alguém, cansado de tanto ruido, tanto eco, decida finalmente escutá-la.

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