ARTE, RESISTÊNCIA E A LUTA CONTRA O ESQUECIMENTO
No início dos anos 2000, durante minha graduação em Comunicação Social (Jornalismo), vivi uma experiência que carregarei para sempre... Era uma aula onde nos foi exibido um documentário sobre o assassinato de Vladmir Herzog pela ditadura brasileira e como sua morte se tornou um dos pilares da demolição do vergonhoso regime no qual nosso país estava afundado. Ao final da exibição, um colega de classe questionou por que precisávamos revisitar aquele assunto e quando o Professor fez menção de responder, interrompi levantando a mão, pedindo a palavra: "Professor, posso?" Com seu consentimento, falei sobre a ditadura, sobre como minha família foi impactada (com primo se escondendo em nossa casa e depois fugindo do país, seu irmão preso e torturado...), como a frase "Cesário, fala mais baixo, vai que alguém te escuta e chama a Polícia..." (durante um almoço de domingo em casa, não se podia falar mal do regime nem dentro de casa) da minha mãe para o meu pai... Bem, eu era um dos mais velhos da turma e me lembrava muito bem do período e a turma toda fez silêncio e prestou atenção; certamente compreenderam meu interesse em deixar claro que nosso país nunca mais deveria passar por tal situação. Contudo, anos depois, vi crescer um movimento desgraçadamente infame que pedia a volta dos militares ao poder. Sim, como disse Marx: "A História se repete, primeiro como tragédia, depois como farsa..." No nosso caso – felizmente – como comédia.
E agora, diante da indicação de Ainda Estou Aqui ao Oscar nas categorias de Melhor Filme e Melhor Filme Internacional, além de Fernanda Torres como Melhor Atriz, sinto que há uma centelha de esperança... Não se trata apenas de um filme, mas sim de um libelo contra a tortura e o desgraçado autoritarismo brazuca, um grito pela memória, um apelo à dignidade humana! Em tempos de extremismo de direita, quando narrativas distorcidas como as do Brasil Paralelo tentam reescrever nossa história, este filme é muito pra lá de necessário, pois nos obriga a lembrar do horror para que jamais o aceitemos novamente... De fato, Ainda Estou Aqui é uma Obra de Arte poderosa, conduzida magistralmente por um diretor que entendeu que, às vezes, o que não se vê é mais devastador do que aquilo que se mostra; portanto, ao invés de explicitar as violências cometidas nas salas escuras do regime, o filme corta a alma do espectador com os ecos de gritos de dor e desespero - muitos deles de mulheres - enquanto o silêncio da cena posterior deixa a dor ressoar em nossas mentes. Tal recurso não apenas nos coloca como testemunhas do horror, mas o fixa no inconsciente, garantindo que essa memória jamais se apague.
Fernanda Torres nos entrega uma interpretação arrebatadora no papel de Eunice Paiva, uma mulher que personificou coragem e – odeio usar essa palavra – resiliência ao enfrentar o silenciamento e a violência do regime. Eunice perdeu o marido, Rubens Paiva, para as garras da repressão, mas jamais se calou. A atuação de Fernanda não é apenas arte, mas um verdadeiro tributo às vítimas e às famílias que lutaram para que suas vozes e entes queridos não fossem apagados. Em cada gesto, em cada palavra, Fernanda nos lembra que a memória é sim um ato de resistência – e o faz magistralmente. E sim, a vitória de Fernanda Torres no Globo de Ouro já é um marco, mas sua indicação ao Oscar eleva o impacto dessa conquista; é uma homenagem não apenas ao seu talento inquestionável, mas também à força da mulher brasileira que carrega em si história, luta e resistência... Em um cenário global onde os olhos se voltam para o Brasil, é uma afirmação de que nossa Cultura - mesmo atacada - permanece viva e pulsante.
Durante os anos de Bolsonaro - notório (e nojento) entusiasta da tortura e da ditadura - a Arte foi sufocada, os artistas vilipendiados e a História, distorcida. Lembrem-se que Bolsonaro rebaixou a Cultura, rebaixando o Ministério da Cultura para uma mera "Secretaria", na qual colocou um entusiasta de Josef Goebbels que foi defenestrado após um vídeo onde emulava o nazista para transmitir uma mensagem distorcida sobre Arte. E não ajudou em nada substituí-lo pela maluca do "pum do palhaço" que minimizou os horrores da ditadura em entrevista; diga-se de passagem, tratava-se de uma atriz decadente e completamente "fora da casinha".
Pois bem, homenagear Fernanda Torres é também homenagear todos os artistas brasileiros que, mesmo diante de tantas adversidades, continuaram a criar, a resistir e a iluminar. Trata-se de um tapa de luva de pelica na cara daqueles que ainda chamam o golpe de 64 de “Revolução”.
A tortura é um crime contra a humanidade, e nenhuma tentativa de revisionismo histórico pode mudar isso, registre-se.
Os que torcem contra Fernanda Torres e contra o Brasil no Oscar disfarçam seu ódio em um patriotismo mais falso que nota de 3 Reais, evidenciando a dura realidade: são apenas hipócritas doutrinados pela extrema-direita. Esses “patriotas”, que tentaram – e fracassaram em – desanimar a população de lotar os cinemas e agora se engajam em campanhas de boicote, são o reflexo de uma sociedade podre, adoecida. Mas nós, que amamos este país e acreditamos na Arte como transformação, seguimos em frente. A indicação já é uma vitória, e o Oscar – se vier – é lucro.
Que este momento sirva para reafirmarmos nosso compromisso com a memória, com a História e com a verdade; que seja um grito de alerta para nunca mais aceitarmos as trevas da ditadura. E que celebremos Fernanda Torres, Eunice Paiva e todos os que lutaram para que o Brasil nunca esqueça.
A Arte – afinal – é o maior ato de resistência.
-soembs0h719z.webp)
Nenhum comentário:
Postar um comentário